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Nota

Das frutas – parte I

31 ago
As sete partes de uma melancia

As sete partes de uma melancia

A kombi do turco passou buzinado. Ou seria o turco que passou com sua kombi buzinando? Era a deixa:

- Oba, melancia!

A mãe pega no oco de seu cachorro de porcelana o dinheiro do leite que vendeu. Como pode, o alimento que sai do animal vira moeda para o alimento que vem da terra? Era dessas relações de troca que vinha um ritual.

Da barganha com o turco para o tanque cheio de água. Deste jeito a melancia ficava geladinha. Não é, ou não deve ser, por acaso que a fruta com 90% de água e 10% de semente seja típica do verão. É como se ela dissesse um “vem cá ver quem manda” pro Sol que insiste em torrar nossas cucas e transformar em suor grudento todo líquido constantemente ingerido.

Mandávamos esta banana para o sol e sentávamos na parte alta da calçada. Era hora de se lambuzar com o líquido vermelho. A faca grande – a mesma usada para destroçar o coração do porquinho que virou salame e as gargantas das galinhas penduradas na cerca – primeiro arrancava os topos da fruta rasteira, depois dividia em partes iguais a fruta aguenta verdevermelhapreta. Sete partes.

Atrasado, o tio não contemplado na divisão grita para garantir seu quinhão:

- O miolinho é meu!

Vídeo

bolacha de água e sal

26 ago

Se tem uma coisa que me lembra a infância é a tal da bolacha de água e sal. Eu era fissurada por uma combinação de ingredientes bem simplória: bolacha de água e sal + leite gelado. Quebra a bolacha aos punhados em uma vasilha e joga o leite por cima (pra mim, bem melhor que sucrilhos).

Detalhe para o leite, de vaca mesmo. Minha mãe era quem tirava, bem cedinho. Nunca aprendi tirar direto da vaca, meu esforço maior era pegar a panela de cinco litros da geladeira (amarela), separar a nata que acumulava em cima e despejar na vasilha com a bolacha. Não era difícil derramar tudo e fazer uma sujeira enorme, mas faz parte.

Já não era mais criança quando comecei ouvir Palavra Cantada, tinha virado tia do Gustavo. E não é que esse grupo que conheci depois dos 20 conseguiu resumir o sentimento que tenho por este  gosto radical – farinha, fermento, água e sal - em uma música (bem bonitinha e instrumentalmente impecável, como costumam ser as canções do Palavra Cantada)?

Vai uma bolacha de água de sal aí?

Bolacha de água e sal – Palavra Cantada

Galeria

um passeio pela cozinha amarela

5 ago

Tinha uns 16 m². Uma mesa redonda bem no meio de quatro lugares, mas que acomodava no mínimo sete. Nos dias de visita, puxavam mais cadeiras de palhinha, sentavam na caixa de lenha… a mesa e o caixote eram amarelos. As palhinhas das cadeiras tinham cor de palha. Amarelas.

A caixa de lenha  ficava entre os dois fogões. O quatro bocas amarelo entupiu e foi trocado. Depois de um tempo, as fábricas de fogões perderam a graça e padronizaram tudo, esqueceram do calor das cores e só ofereciam duas básicas: branco e marrom. Então o quatro bocas amarelo foi trocado por um seis bocas marrom. O outro, de lenha, sempre foi amarelo. Em volta, as sete pessoas sentavam pra tomar mate queimado e comer pinhão assado na chapa.

A geladeira também era amarela, mas sofreu do mesmo descaso do fogão. Fábrica padrão e a troca por outra: duplex, frost free. Branca.

Os armários, todos em volta, eram do mesmo material da mesa e da caixa  de lenha. Eram amarelos.

E o chão, já falei do chão? Dois: em volta da pia e do fogão à lenha, um piso branco. Em baixo da mesa, taquinhos marrons. E amarelos. Dava um trabalho que só vendo pra limpar. A parede recoberta de azulejos de flores. Flores amarelas que dançavam conforme o olhar.

A cozinha amarela tinha cheiro de pão quente. De alho e cebola fritos. Não tinha música, só o bate-bate das panelas e o chiado da lenha verde no fogão.

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